PASTORES EM AGONIA – Rev. Itamar Bezerra

Por em 21 / fevereiro / 2017

Este texto é parte integrante do livro: Pastores em Agonia do Rev. Itamar Bezerra

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas

Essa não foi a única vez que Jesus lamentou e chorou sobre a sorte dos seus profetas. Em uma parábola muito conhecida ele usou a metáfora de um homem, dono de casa, que plantou uma vinha. Cercou-a de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre e arrendou-a a uns lavradores. Depois, se ausentou do país. Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam. E os lavradores, agarrando os servos, espancaram um a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte. E, por último, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: A meu filho respeitarão. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança. E agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram. O cerne da história é o mesmo de quando Jesus exclamou: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”. Obviamente, não irei fazer exegese dos textos, pois você já está careca, banguelo e barrigudo de saber essas coisas. Vou apenas repartir as minhas impressões e desaguar as minhas dores, que imagino serem as suas, pois somos esses lavradores e esses profetas machucados e mortos por “Jerusalém”. O dono da vinha é o Senhor; o filho, óbvio, é Jesus Cristo; a vinha é o seu povo; os servos enviados são os seus ministros. E quem são os lavradores maus? E quem será Jerusalém que mata os profetas? Bom, no caso específico e pontual de Jesus, os lavradores eram os líderes religiosos dos seus dias, incluindo escribas, sacerdotes, rabinos, defensores ferrenhos da lei mosaica. Jerusalém não era propriamente a cidade, mas o judaísmo, seus ritos e praxes sem vida. E hoje, quem são Jerusalém e os seus lavradores? O farisaísmo tão combatido por Jesus não era apenas a corrente de pensamento religioso defendida e vivida pelos fariseus, mas sintetizava a hipocrisia e relação mecânica com as verdades espirituais. Desde a formação do helenismo, sob o manto das dinastias dos Herodes e a ostensiva manipulação e ingerência dos Césares, a fé, ou religião do mundo compreendido pelos domínios romanos, foi calcada pelos ditames do judaísmo, que só mudou de fisionomia em partes diminutas por esse ou aquele grupo religioso, mas que na essência a dinâmica da relação com Deus, sua palavra e seus valores era a mesma: o ritualismo mecânico e a hipocrisia nas relações. Como em um único pacote, todos viviam na região da sombra e da morte, por mais de 400 anos: Fariseus, Saduceus, Zelotes, Herodianos, Essênios e Zadoqueus. Deixe-me refrescar a sua memória, pois sei que você viu isso no Seminário.

A fonte principal de informação é encontrada nas obras de Flávio Josefo. Em dois de seus livros, As Guerras dos Judeus (II, viii, 1-4) e As Antiguidades dos Judeus (XIII, v. 9), ele escreve acerca de quatro desses partidos: fariseus, saduceus, zelotes e essênios. Acrescento aqui os herodianos e os zadoqueus.

1. Fariseus — O grupo maior e mais importante. A palavra em si significa “separatistas”, tendo sido, provavelmente, aplicada como expressão de escárnio aos oponentes. Alguns estudiosos dizem que o termo foi usado pela primeira vez quando alguns judeus piedosos “se separaram” de Judas Macabeu, depois de 165 a.C. Seja qual for sua origem, os fariseus foram o resultado final do movimento que teve seus primórdios com Esdras, intensificado pelos hasidins, sob os sírios e romanos. Eles representam aquela tendência, no judaísmo, que sempre reagiu contra dominadores estrangeiros, mantendo o exclusivismo judaico e a lealdade à tradição dos pais. Pouco se interessavam pelo poder político, mas se tornaram os mentores políticos de Israel. Devido à sua profunda reverência e devoção aos ideais nacionais e religiosos judaicos, os fariseus se opuseram à introdução das ideias gregas, e não deixou de ser natural que se tornassem o partido reacionário.

  1. Saduceus— Embora a origem da seita esteja perdida na obscuridade, o nome pode ter-se derivado de um certo Zadoque, que sucedeu Abiatar como sumo sacerdote durante os dias de Salomão. Pode ter vindo da palavra hebraica “zoddikim”, que significa “os justos”. Os saduceus gabavam-se de sua fidelidade à letra da lei mosaica, contrariamente à tradição oral. Este era o partido da aristocracia e dos sacerdotes abastados. Eles controlavam o sinédrio e qualquer resquício de poder político que restava. Também controlavam o templo. O sumo sacerdote era sempre o líder do grupo. Era um grupo fechado e não procurava prosélitos, como o faziam os fariseus. Teologicamente eram conservadores (diziam), limitavam o cânon à Torah ou Pentateuco. Rejeitavam as doutrinas da ressurreição, demônios, anjos, espíritos, e advogavam a vontade livre, em lugar da providência divina.
  2. Zelotes— Os zelotes representavam o desenvolvimento na extrema esquerda entre os fariseus. Estavam interessados na independência da nação e sua autonomia, ao ponto de negligenciarem qualquer outra preocupação. Segundo Josefo, o fundador foi Judas de Gamala, que iniciou a revolta sobre o censo da taxação, em 6 d.C. Seu alvo era sacudir o jugo romano e anunciar o reino messiânico. Eles precipitaram a revolta em 66 d.C, que levou à destruição de Jerusalém em 70. Simão, o zelote, foi um dos apóstolos, segundo a tradição.
  3. Essênios— Estes representavam o desenvolvimento na extrema direita entre os fariseus. Eram uma ordem distinta, na sociedade judaica, mais que uma seita dentro dela. Sendo o elemento mais conservador dos fariseus, eles enfatizavam a observação minuciosa da lei. Formavam uma comunidade ascética ao redor do Mar Morto, e viviam uma vida rigidamente devota. A partir dos documentos de Qumram, parece que eles aguardavam um messias que iria combinar as linhagens real e sacerdotal, numa estrutura escatológica.
  4. Herodianos— Eram os saduceus da extrema esquerda. Tirando o nome da família de Herodes, eles baseavam suas esperanças nacionais nessa família e olhavam para ela com respeito ao cumprimento das profecias acerca do Messias. Eles surgiram em 6 d.C, quando Arquelau, filho de Herodes, o Grande, foi deposto, e Augusto César enviou um procurador, Copônico. Os judeus que favoreciam a dinastia herodiana eram chamados “herodianos”. Este grupo é mencionado em Mateus 22:16 e Marcos 3:6; 12:13. Foram aqueles que entraram em combinação com os Fariseus para ver de que forma apanhariam Jesus em falha.
  5. Zadoqueus— Eram os que estavam na extrema direita dos saduceus. Embora não mencionados em o Novo Testamento, esse grupo é importante, porque mostra outra tendência entre os saduceus, talvez dando uma chave quanto à sua origem. Em 1896, um fragmento de um documento foi encontrado numa sinagoga no Cairo. Publicado em 1910, com o título Fragmentos de uma Obra Zadoquita, este termo entrou em todas as discussões acerca do judaísmo sectário. A descoberta de outros documentos na comunidade de Qumram, do Mar Morto, sugere alguma relação entre os zadoqueus, os essênios e a comunidade de Qumram. Eram missionários fervorosos, em busca de um mestre de justiça que chamasse Israel de volta ao arrependimento e apareceria no advento do Messias. Eles aceitavam toda palavra escrita, mas rejeitavam a tradição oral. Eram muito abnegados na vida pessoal e leais aos regulamentos da pureza levítica. Deram grande ênfase à necessidade de arrependimento. Mas como eu disse no início, todos esses grupos faziam parte de uma pratada só: uma religião fundamentada em preceitos de homens, ritos, conexões políticas e expressões de fervor da boca para fora. Essas facções se instituíram e se estratificaram como seitas históricas bem fundamentadas, com seus próprios códigos de conduta e regras adicionais, que se tornaram suas constituições. Era doutrina demais, dogma à frente de tudo, sistemas e métodos mais importantes que vidas, como mui bem expressou o Senhor Jesus, acerca da atitude dos fariseus: davam o dízimo até do endro e do cominho, cumpriam rigorosamente a letra da lei, mas negligenciavam a misericórdia e o amor. O sistema denominacional era mais importante do que as pessoas. Tudo isso equivaleria hoje à nossa religião pseudo-cristã-evangélica-tradicional-ultraconservadora, seus ritos, suas práticas, seus dogmas e fundamentos igualmente manipulados por homens, em nome de Deus. Você já viu, por exemplo, em algum lugar, em um concílio, as arrumações politiqueiras, sórdidas, rolarem soltas pelos corredores à caça de votos e conveniências pessoais, e depois, na assembleia, com as caras mais solenes e “espirituais”, dizerem: “Vamos orar pedindo a Deus que manifeste a sua vontade”? Você já se viu privado de participar da reunião do seu grupo soberano de liderança (mesa administrativa, colegiado, sessão, ou qualquer outro nome que se dê ao seu staff de liderança) que, a portas fechadas, trata do seu destino e define seus passos e de sua família, em reunião tensa e conflituosa que desemboca numa votação rixosa, e depois comunica as santas decisões, em nome da Trindade, com vozes doces e angelicais, como se acabassem de descer do monte da transfiguração? (Isto é o que eu já vi e ouvi de muitos colegas adoecidos em vários lugares do nosso Brasil; ministros de várias denominações, cuja realidade é irmã). E o que dizer das acirradas disputas teológicas e ideológicas dentro da igreja, em nome e pela defesa da fé e do Evangelho (como se a verdade de Deus e o seu santo Evangelho precisassem de defesa tão pobre e rasa como a nossa), em consequência das quais servos e servas de Deus são achatados, humilhados e descartados como bruxos hereges, simplesmente porque pensam diferente, ou têm uma compreensão em outro prisma a respeito de um ou outro texto bíblico, ou ainda porque não se tolera o diferente na convivência cristã? O que dizer diante das palavras de Jesus, que exaltou a atitude de um “asqueroso samaritano” (aos olhos dos judeus, claro), que se compadeceu de alguém ferido à beira da estrada, em contraste com a postura dos religiosos – sacerdote e levita – que seguiram seu caminho para celebrar seus cultos e nem olharam para aquele que estava caído no caminho? Quantos de nós estão gemendo e até agonizando na lida com tantos lavradores maus que impõem suas ruindades sobre os servos da colheita, por causa de liturgias, formas de culto, procedimentos rituais, manutenção e preservação da história, por uma cortina ou um jarro que não pode ser mudado de lugar, enquanto jovens cambaleiam vencidos pela tentação e apelo secular, sem espaços para a expressão dentro da igreja, e casais arrumam as malas para a separação, sem serem devidamente assistidos, e outros tantos suspiram entediados querendo maná e não palha, engolfados por uma malha denominacional densa e rígida que bloqueia o derramar efusivo da graça de Deus? É triste, mas isso não é só nosso, nem prerrogativa da nossa geração; foi assim nos dias de Jesus: esteve entre os seus, anunciou a graça salvadora, curou, ensinou, testemunhou, mostrou sinais claros de sua divindade, mas os de olhos baços e viseira religiosa não o enxergaram, nem o aceitaram; mataram-no. E antes que eu passe para frente, deixe-me comentar algo mais nesse contexto: e o que você, caro colega, me diz sobre os processos eleitorais realizados em muitas igrejas? Note: Você está em sua igreja, pela qual ora, sua e sofre, igreja essa que disse ter feito campanha de oração para que Deus confirmasse a sua anterior eleição, e Deus então confirmou o seu nome. Depois de certo período, ao que parece, Deus se arrepende de tê-lo posto à frente da igreja e a comunidade vai eleger outro, em movimento geralmente carnal, com partidarismos e predileções. Você ainda está como o pastor do rebanho, o anjo da igreja; aí vem outro pastor pregar em sua igreja, sorridente, carismático, performático, para conquistar a sua gente, na sua cara, e depois vem mais outro com o mesmo propósito, e você ali vendo tudo aquilo, sem poder fazer nada, por força de regimentos e praxes – pois nada disso está na Escritura, e tudo debaixo da bênção e orientação da liderança que governa a igreja, e tudo em nome de Deus. Rapaz, eu vejo isso como se um conquistador barato fosse namorar a sua mulher dentro da sua casa, usando o seu sofá. Não é sem razão que haja tanta igreja doente, fraca, insegura, volúvel e carnal, sendo liderada por gente com essa mentalidade. É mesmo de adoecer e levar à morte os profetas do Senhor. A verdade é que uma igreja verdadeira deveria louvar todo dia a Deus pelo privilégio de ter em seu meio um verdadeiro ministro da palavra, e não o Comodoro de um clube ou um bom gerente de atividades espirituais. Entendo também, por outro lado, que os processos eleitorais e mandatos estabelecidos são os recursos legítimos que os Conselhos das igrejas têm para se protegerem de pastores fajutos e desintegradores de rebanhos. E há muitos. O que trago aqui como reflexão e proposta é muito simples. Primeiro, mandato não segura pastor em igreja, em nenhuma das situações. Se ele desejar sair efetivamente, simplesmente renuncia ao mandato em caráter irrevogável e fica tudo certo. Se, por outro lado, as coisas se complicarem na igreja, e a liderança entender que o melhor para o rebanho é o afastamento do ministro, pede-se a exoneração dele, não importando quanto tempo ainda reste a ser cumprido. Em segundo lugar, veja que simples poderia e deveria ser uma eleição: submete-se a questão à assembleia numa votação simples, um plebiscito, sim ou não, sem concorrentes. Se eleito, o pastor continua a sua jornada sem crises ou constrangimentos. Se não, aí, sim, abre-se um processo natural de escolha de um novo pastor, dentro dos critérios bíblicos, constitucionais e a conveniência da igreja. Simples assim. A realidade, no entanto, não é essa. O cenário religioso do nosso tempo é sombrio e as trevas se adensam, como profetizou o apóstolo dos gentios: Vai alta a noite e vem chegando o Dia; a apostasia aprisiona o homem com cordas religiosas, pondo-lhe tapa-olhos. Só mesmo um novo derramar de Deus, um genuíno avivamento, outro Pentecoste, libertará Jerusalém dos seus manipuladores.

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